30 Janeiro, 2012

Disciplina, sim ou não?

A Revista do jornal Expresso deste passado fim-de-semana apresenta um artigo entitulado "O regresso da disciplina", que se remete ao dossier Educação.

Começa o referido por contar a história de Rui e Rodrigo, irmãos gémeos de nove anos de idade, que ao passar para o 4º ano de escolaridade e mudando de estabelecimento de ensino começaram a recusar-se a ir à escola. O pai, tendo conhecimento que a professora lhes chamara "bebés chorões" frente à turma, tomou inicialmente o seu partido, enquanto a mãe nunca colocou a hipótese de ver as crianças fora da escola. Após 9 dias de faltas, o pai recuou.
O casal começou por oferecer-lhes um euro por cada dia que fossem à escola, sem resultados; pediram então à polícia que os obrigasse a ir à escola, com o mesmo resultado. Finalmente, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens interveio, instituindo regras aos gémeos e retirando-lhes regalias e outros, tais como jogos, saídas e o cão de ambos. Oito meses de castigos e terapia familiar. Rui e Rodrigo voltaram para a escola e têm agora um "comportamento exemplar e boas notas". Não gostam de falar sobre esse período. Segundo a mãe, o que motivou este comportamento foi "amor a mais e regras a menos. Dizia que não e não o mantinha".

Bem, aqui tenho de parar para respirar.
Só nestes dois parágrafos tenho o coração aos saltos, com o choque.
Vamos lá a ver, antes de começar: sou a favor de regras para as crianças - e já agora para os adultos.
Regras fornecem estrutura e estabilidade, amor e segurança. Mas também estas existem para serem quebradas de vez em quando, e não vem mal ao mundo por isso - ou querem-me convencer que, noutro caso que o artigo refere mais adiante, foi por causa de um episódio (em que tinha 4 anos) em que os pais lhe disseram, num centro comercial, "o que queres? escolhe!" que um actual adolescente passou a exigir tudo em vez de pedir e, quando não o obtinha, a recorrer à violência? Bolas, é melhor começarmos a policiar todos os nossos actos e eliminar de vez a espontaneidade da educação, não?

Não consigo compreender que uma mãe diga que dá Amor a mais. Amor nunca se mede, e mesmo assim nunca chega.
Não consigo compreender que uns pais não dialoguem com os filhos para descobrir a raíz da sua dor, identificar o problema e encará-lo de frente. Não consigo compreender como ninguém se dá ao trabalho de perceber que duas crianças recém-colocadas numa nova escola têm um mundo de desafios para superar (bem, o mesmo acontece connosco, adultos, num emprego novo) e precisam de muito carinho, empatia, compreensão e tempo para os vencer a todos, e não de alguém que imediatamente os evidencia perante o grupo com uma conotação negativa.
Não consigo compreender como estes pais não se dirigem à professora para lhe explicar este facto, e lhe fazer ver o seu comportamento.
Nem tampouco como permitem que os seus filhos sejam destituídos do que lhes é precioso como castigo por um comportamento que apenas escolheram para demonstrar como estavam magoados. Sim, porque duas crianças que nunca tinham feito nada do género e de repente ameaçam atirar-se pela janela caso os obriguem a ir à escola estão, obviamente, a emitir um claro alerta. Que me parece que ninguém ouviu.

Mas enfim, o meu conhecimento do caso limita-se ao que está escrito sobre ele, pelo que a minha opinião pessoal é, assim, também ela, limitada. Mas a bottom line aqui, para mim, é de que existe uma diferença abismal entre querer educar um robot ou um espírito livre que a nada nem ninguém reconheça autoridade. Algures no meio termo estão as crianças-Ser, que sabem poder exprimir-se e ter a atenção dos pais e educadores, que sabem relacionar-se, respeitar e ser respeitadas. A quem podemos ensinar o que é sim e o que é não, ainda assim permitindo-lhes serem quem são, e amando-as por isso. A quem ensinamos e com quem aprendemos, todos os dias.

Fala também o artigo sobre a penalização dos pais, através de coimas, por situações de indisciplina dos alunos.
Se para mim é óbvio que um ambiente de amor familiar é a pedra basilar para um comportamento saudável ao longo da vida, é óbvio de igual forma que aqui se volta a ignorar a urgente questão da forma como se lecciona em muitas das escolas públicas - e aqui posso falar do exemplo que vivo, em que ainda se castiga os alunos virando-os contra a parede ou ameaçando "dar-lhes uns cascudos" fora de portões escolares. Confesso que fico enlouquecida com estas atitudes.

E como este é um problema muito mais complexo do que aparenta à primeira vista, termino com o raciocínio seguinte: uma criança que faz "birras" quer chamar a nossa atenção. Os pais, que muitas vezes se dividem por mais de um emprego e gerem com enormes quantidades de stress a sua vida profissional e pessoal, não investem (porque não podem, ou porque não querem) a quantidade de atenção necessária para oferecer segurança emocional aos filhos. Onde é que isto vai parar? 

Continuo a achar que o caminho se faz através da Educação Emocional. Envolvendo pais, educadores, familiares e crianças.
Infelizmente, caminha-se é no sentido de calar emoções e gerar máquinas de calcular de sucesso......

20 Janeiro, 2012

A felicidade profissional


Ontem vi na TV uma reportagem sobre um estudo (norte-americano, salvo erro) que indicava as profissões que - supostamente - nos fazem mais felizes. Mais do que esta ou aquela que mostrava a reportagem, sinto que a profissão que nos faz feliz é facilmente intuída por cada um de nós, pelo menos quando se dá ao "trabalho" de se escutar com atenção. No meu caso específico, sei que há pelo menos duas o...u três que se encaixariam como uma segunda (ou primeira) pele, porque sinto-as como parte integrante, e impossível de remover, do meu Eu. E apesar de as ver como "duas ou três" sei que são tão somente braços de uma única corrente - a do serviço ao Outro.

A reportagem entrevistava alguns representantes das profissões escolhidas no estudo e percebi que todos falavam a mesma língua: a do Amor. Amor ao trabalho que realizam, a si mesmos e aos outros.

Rematava o jornalista com algo que me pareceu de muita importância, tanto mais no tempo (difícil e simultâneamente maravilhoso) em que vivemos, e que era qualquer coisa como isto: "em conclusão, pode dizer-se que a felicidade profissional não está directamente ligada ao número de zeros na conta bancária".

A mim parece-me este ser mais um sinal da mudança que aí sopra. E a vocês?

09 Janeiro, 2012

Aprender a Ser – uma visão transpessoal na Educação

Boas-vindas, Senhora Mudança!
O Mundo entrou em 2012 e o sopro da mudança, que vem prometendo acelerar as batidas cardíacas, romper com o que está comodamente instituído e agitar as almas até dos mais distraídos em breve se fará sentir com intensidade crescente.
Este paradigma de mudança reflecte-se em todos os cantos da sociedade, pelo que não há como contornar a vontade global de liberdade que os seres humanos, em cada canto, vêm a expressar desde algum tempo.
Liberdade, acima de tudo, para Ser. Para abraçar o que somos, quem somos, o que verdadeiramente desejamos e sentimos como trajecto de Vida.
A Educação tem um papel primordial na formação dos indivíduos; no entanto, hoje em dia vivencia-se esta experiência grandiosa e bela que é aprender – e educar – de uma forma castrada, com a primazia de um ensino que formata aprendizagens e pretende formar crianças, jovens e adultos com mentes de pensar e calcular totalmente similares. Potencia-se a competitividade, em nome da qual se perdem horas de sono (e de Vida) na expectativa de se ganhar a corrida para a meta de atingir um melhor emprego, um sorriso de orgulho na face dos pais, um futuro que se pensa(va) assegurado pela média numérica apresentada no canudo.
A Educação, no entanto, não se enruga e encolhe numa fórmula matemática de criação de pequenos génios. A Educação é, na verdade, tudo e todos, em cada momento. É o ensinar a sorrir, quando se sorri, o ensinar a chorar quando se chora, o ensinar a Amar quando se ama. Porque se aprende pela experiência, pela imitação dos adultos (pais, amigos, professores), aqueles que, quando criança, se vê como os nossos maiores ídolos.
A escola tem de abrir os braços para acomodar o grande espaço de aprender a Ser. Afinal, o que de mais importante se pode aprender? E isto, digo-vos, leva-nos anos. E conduz-nos à maior riqueza que podemos almejar – a nós mesmos.
Se estamos na escola dos 6 aos 18, ou até 23 anos, então é incontornável a importância da educação na formação do indivíduo. E é importantíssimo que essa educação o direccione para aquilo que naturalmente é o seu caminho, para que não andemos às aranhas a vida toda, pensando onde ficou, no trajecto, aquele entusiasmo voraz por viver. A criança interior perdida.

Educar para Ser
Todos nos debatemos com a mesma questão fundamental: quem Somos? Definimo-nos por qualidades e/ou defeitos, pela profissão que exercemos, pelo sexo, idade e estado civil, local de nascimento ou residência, mas… e a nossa Essência, o que diz de nós? Somos quem sempre desejámos Ser? Com que sonhávamos, em criança? Ainda existe espaço, nas nossas vidas corridas à pressa (creche/escola – trabalho – creche/escola – casa) para acomodar o sonho? Ou esse foi relegado apenas para a almofada?
Eu sou Margarida, mulher em constante descoberta de si mesma. Educadora de coração e vocação, caminho que a intuição sempre me soprou e que acabei por abraçar, como não podia deixar de ser.
Acredito numa escola em que cada criança é um indivíduo e, como tal, individual e única em si mesma. Importante, irrepetível, universal. Um misto de dons e apetências que deve ser estimulado de todas as formas, através da música, da arte, da dança, de relação com os seres vivos, com a terra, para que num ambiente de muito amor, respeito, empatia e compreensão as crianças possam descobrir aquilo de que gostam – e explorá-lo.
Cada criança única aprende através do seu caminho individual, da soma das experiências que a sua essência selecciona como importantes para o seu desenvolvimento como indivíduo – para o seu caminho.
A escola torna-se então um lugar de alegria, de troca, de partilha, em que tanto os educadores como os educandos se enriquecem aprendendo e ensinando ao mesmo tempo.
Um lugar onde as emoções se libertam em equilíbrio e protecção, onde há constante espaço para o diálogo, para a livre expressão do sentimento, sem tabus nem repressões. E sem pressão nem competitividade, porque cada um aprende quem É e o honra em consonância.

22 Dezembro, 2011

Reflexões de Natal

Este vai ser um Natal diferente.

Vai ser o meu primeiro na ausência da minha irmã e sobrinhas, a mais nova das quais, com poucos meses, ainda nem conheci. E vai ser o primeiro delas na terra onde escolheram viver, onde optaram ir descobrir a qualidade de vida que lhes falhava aqui.

Essa ausência já se sente, e em momentos de reunião familiar como pede a época ainda será mais sentida. Vão faltar-me os risos, os abraços, os beijos, as brincadeiras. O calor.

Mas esta ausência tem feito crescer, insuspeitamente, o nosso laço. As palavras são mais ricas e doces, o Amor corre mais livre, a entreajuda mais fluida, sente-se com maior intensidade e força o carinho, a ternura, a partilha é cada vez maior.

Por isso, este Natal, embora na ausência física vai ser mais rico, porque a Alma cresceu e ramificou-se, e sabe agora que a distância não é desamor. Ultrapassou o egoísmo do querer estar para o altruísmo do saber libertar, e continuar ainda assim a ganhar com isso.

Este foi um ano de muito crescimento interior, muita aprendizagem, muitas sementes plantadas, que agora repousarão e germinarão nas mudanças que, estou certa, 2012 trará.

E que eu abraçarei com mais amor, esperança, fé e confiança!

21 Dezembro, 2011

Yule, renovação e despertar


De louco todos temos um pouco. Caso para aplausos, em minha modesta opinião. É no contacto com essa loucura sã que mergulhamos no nosso interior mais profundo, na intuição pura, no desejo da criança interior e na sabedoria dos nossos antepassados.
 
Saber equilibrar essa loucura é, na verdade, uma arte.
Muito embora na civilização ocidental esta arte seja tratada como uma neurose, um desequilíbrio, ensina-nos o xamanismo que aquele que possui o dom de "falar" com os espíritos da Terra deve ser tratado com honra e destaque na sociedade.
 
Dentro do espírito do Yule - Solstício de Inverno, festival pagão que é a raíz do natal cristão - que se celebra hoje/amanhã, em que se pede uma hibernação da alma para renovar as esperanças e energias, num reencontro com a criança interior, deixo aqui uma meditação que tem como propósito a saudável interacção com o que há de louco em nós, um conhecimento mais profundo e rico de quem somos.
 
Desejo uma excelente "viagem" e uma celebração maravilhosa!
 
 
Meditação "A descida para a loucura"
Esta meditação deve ser feita mais do que uma vez, pois os resultados serão sempre diferentes e mostrarão personalidades distintas que habitam na pessoa. Trata-se de um modo seguro para nos encontrarmos com o nosso "eu" sombra, a louca e potencial Deusa das Trevas da nossa alma. Esta viagem pode ser registada num diário mágico ou gravada, devido à riqueza de p...ormenores a recordar.

Precisa-se de pelo menos 20 minutos sem perturbações, um local confortável e ausência de ruído.
Deitada ou sentada, começa-se por respirar e relaxar o corpo devagar, libertando as tensões acumuladas, descontraindo.

Visualizamo-nos então de pé num espaço bonito e tranquilo, como um prado ou uma praia. Damos atenção ao local, ao clima, à paisagem, ao que temos vestido. Olhamos em volta, e damo-nos conta de uma floresta ali perto. Dirigimo-nos para lá. Seguimos um caminho estreito que leva a um pequeno riacho. Qua sons de animais conseguimos ouvir? Existe um animal que caminha a nosso lado, enquanto nos embrenhamos na floresta?

Vamos ter a uma colina e, observando-a, reparamos numa porta ou caverna. Esta é a nossa entrada para o Outro Mundo, e preparamo-nos respirando profundamente. Ao entrar encontramos uma escada em espiral cuja descida nos leva cada vez mais às trevas. Reparamos, ao descer, na textura e temperatura do ar e em como nos sentimos.

Finalmente chegamos a terra plana. Estamos frente a um corredor com duas portas, uma à esquerda e outra à direita. A porta da esquerda está aberta. Espreitamos para dentro da sala. O que vemos? Como são as paredes, o chão, o mobiliário, a decoração?

Voltamos então para a sala da direita, cuja porta está fechada. Abrimo-la, para conhecer a pessoa louca que está do outro lado. Ao entrar reparamos na atitude da pessoa que lá está, ao ver-nos (esta pessoa pode ser um homem ou uma mulher). Fica contente e salta? Assusta-nos? Ou está sentada infeliz a um canto? Como é a sala? Há animais? Qual a reacção deles?

Falamos com a louca, perguntado-lhe como chegou ali, o que ali faz e como se associou a nós. Afinal, ela é uma parte de nós.

Tomamos agora a decisão de a trazer para a superfície ou deixar lá. Se ela quiser vir, damos-lhe tempo para se despedir do seu espaço.

Ao voltar para trás olhamos de novo a sala da esquerda para perceber se algo mudou.

Subimos a escada e voltamos para junto do ribeiro e da floresta, onde o nosso animal de poder - o que ouvíamos, e nos seguiu - nos espera. Falamos então com a louca, acordando que seremos receptivos às suas ideias, embora não lhe permitamos tomar conta de nós por inteiro.

Voltamos então ao prado ou praia e, lentamente, começamos a acordar, dando atenção ao nosso corpo e respiração.