A Revista do jornal Expresso deste passado fim-de-semana apresenta um artigo entitulado "O regresso da disciplina", que se remete ao dossier Educação.
Começa o referido por contar a história de Rui e Rodrigo, irmãos gémeos de nove anos de idade, que ao passar para o 4º ano de escolaridade e mudando de estabelecimento de ensino começaram a recusar-se a ir à escola. O pai, tendo conhecimento que a professora lhes chamara "bebés chorões" frente à turma, tomou inicialmente o seu partido, enquanto a mãe nunca colocou a hipótese de ver as crianças fora da escola. Após 9 dias de faltas, o pai recuou.
O casal começou por oferecer-lhes um euro por cada dia que fossem à escola, sem resultados; pediram então à polícia que os obrigasse a ir à escola, com o mesmo resultado. Finalmente, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens interveio, instituindo regras aos gémeos e retirando-lhes regalias e outros, tais como jogos, saídas e o cão de ambos. Oito meses de castigos e terapia familiar. Rui e Rodrigo voltaram para a escola e têm agora um "comportamento exemplar e boas notas". Não gostam de falar sobre esse período. Segundo a mãe, o que motivou este comportamento foi "amor a mais e regras a menos. Dizia que não e não o mantinha".
Bem, aqui tenho de parar para respirar.
Só nestes dois parágrafos tenho o coração aos saltos, com o choque.
Vamos lá a ver, antes de começar: sou a favor de regras para as crianças - e já agora para os adultos.
Regras fornecem estrutura e estabilidade, amor e segurança. Mas também estas existem para serem quebradas de vez em quando, e não vem mal ao mundo por isso - ou querem-me convencer que, noutro caso que o artigo refere mais adiante, foi por causa de um episódio (em que tinha 4 anos) em que os pais lhe disseram, num centro comercial, "o que queres? escolhe!" que um actual adolescente passou a exigir tudo em vez de pedir e, quando não o obtinha, a recorrer à violência? Bolas, é melhor começarmos a policiar todos os nossos actos e eliminar de vez a espontaneidade da educação, não?
Não consigo compreender que uma mãe diga que dá Amor a mais. Amor nunca se mede, e mesmo assim nunca chega.
Não consigo compreender que uns pais não dialoguem com os filhos para descobrir a raíz da sua dor, identificar o problema e encará-lo de frente. Não consigo compreender como ninguém se dá ao trabalho de perceber que duas crianças recém-colocadas numa nova escola têm um mundo de desafios para superar (bem, o mesmo acontece connosco, adultos, num emprego novo) e precisam de muito carinho, empatia, compreensão e tempo para os vencer a todos, e não de alguém que imediatamente os evidencia perante o grupo com uma conotação negativa.
Não consigo compreender como estes pais não se dirigem à professora para lhe explicar este facto, e lhe fazer ver o seu comportamento.
Nem tampouco como permitem que os seus filhos sejam destituídos do que lhes é precioso como castigo por um comportamento que apenas escolheram para demonstrar como estavam magoados. Sim, porque duas crianças que nunca tinham feito nada do género e de repente ameaçam atirar-se pela janela caso os obriguem a ir à escola estão, obviamente, a emitir um claro alerta. Que me parece que ninguém ouviu.
Mas enfim, o meu conhecimento do caso limita-se ao que está escrito sobre ele, pelo que a minha opinião pessoal é, assim, também ela, limitada. Mas a bottom line aqui, para mim, é de que existe uma diferença abismal entre querer educar um robot ou um espírito livre que a nada nem ninguém reconheça autoridade. Algures no meio termo estão as crianças-Ser, que sabem poder exprimir-se e ter a atenção dos pais e educadores, que sabem relacionar-se, respeitar e ser respeitadas. A quem podemos ensinar o que é sim e o que é não, ainda assim permitindo-lhes serem quem são, e amando-as por isso. A quem ensinamos e com quem aprendemos, todos os dias.
Fala também o artigo sobre a penalização dos pais, através de coimas, por situações de indisciplina dos alunos.
Se para mim é óbvio que um ambiente de amor familiar é a pedra basilar para um comportamento saudável ao longo da vida, é óbvio de igual forma que aqui se volta a ignorar a urgente questão da forma como se lecciona em muitas das escolas públicas - e aqui posso falar do exemplo que vivo, em que ainda se castiga os alunos virando-os contra a parede ou ameaçando "dar-lhes uns cascudos" fora de portões escolares. Confesso que fico enlouquecida com estas atitudes.
E como este é um problema muito mais complexo do que aparenta à primeira vista, termino com o raciocínio seguinte: uma criança que faz "birras" quer chamar a nossa atenção. Os pais, que muitas vezes se dividem por mais de um emprego e gerem com enormes quantidades de stress a sua vida profissional e pessoal, não investem (porque não podem, ou porque não querem) a quantidade de atenção necessária para oferecer segurança emocional aos filhos. Onde é que isto vai parar?
Continuo a achar que o caminho se faz através da Educação Emocional. Envolvendo pais, educadores, familiares e crianças.
Infelizmente, caminha-se é no sentido de calar emoções e gerar máquinas de calcular de sucesso......